No final até a gestão moderna acaba em samba.

Na edição 92 da revista HSM Management, li duas matérias muito interessantes sobre gestão de empresas: uma que associava o carnaval (principalmente o carioca e o paulistano) como uma referência de gestão a ser seguida, e outra que falava de neoempresa, um novo modelo de empresa adequado ao século 21.

Gosto muito de matérias deste tipo, pois está muito claro para mim que o Brasil ainda é um país onde muitos negócios dão certo porque temos demanda e não porque temos planejamento, estratégia e gestão, e isto faz com que sejamos menos competitivos lá fora.

Mas como já tive muitos dissabores tentando levar a teoria para a prática, desta vez tive o cuidado de digerir bem as mensagens transmitidas pelas duas matérias para ver se finalmente encontraria algo que ecoasse na cabeça dos lideres, motivando-os a buscarem uma nova postura na gestão para seus negócios.

De cara me simpatizei, concordei e aceitei a análise que o autor, Marcelo Chiavone Pontes, fez em sua matéria sobre as escolas de samba e os desfiles de carnaval com o mundo empresarial. Naquilo que para os leigos parece ser o caos, na verdade está presente um processo organizado, um negócio que movimenta R$ 5,5 bilhões segundo dados do Ministério do Turismo e que traz no seu dia-a-dia (sim, o carnaval é um ano de trabalho e não alguns dias) práticas como satisfação do cliente, generosidade, gestão de detalhes, senso de prioridade e trabalho em equipe.

Como dizia meu avô, a mensagem que o autor passa é “um tapa com luva de pelica” naqueles que ainda acham que não precisam de nada relacionado às práticas de gestão para vencerem, afinal como explicar a “antiestrutura estruturada” presente no universo dos desfiles de carnaval que gera tanta riqueza? Um cenário formado pela relação entre o princípio de estrutura, fator essencial para uma escola de samba ser campeã e o princípio da antiestrutura, dado o caráter de festa do cenário onde ela se insere.

A resposta é organização, planejamento, estratégia, trabalho em equipe, criatividade e disciplina.

Em relação a segunda matéria, de autoria de Cesar Souza, consultor renomado no mercado nacional, o português parece ser mais elaborado, afinal o autor fala em um esboço de um novo modelo de empresa que se pauta em 15 novas características para manter o negócio em pé neste mundo em transe.

Mas apesar desta segunda matéria falar em neoempresa, em novo modelo e com isso o português parecer ser mais elaborado, na verdade ele não é!

Analisando  as tais 15 características de que o autor fala, descobri que essa matéria está intimamente ligada a primeira, afinal já tem muita escola de samba praticando estes conceitos em nome da sobrevivência, uma vez que só no Rio de Janeiro o orçamento para colocar o samba na rua gira em torno de R$ 10 milhões.

Veja comigo cada uma das 15 características, o que as escolas estão fazendo em relação a elas e depois me diga se no final o samba não é referência a ser seguida:

1 – Empresa deve tornar-se uma entidade multicentrada – As escolas trabalham pelo sucesso de sua comunidade, pelo retorno do investimento recebido de seus patrocinadores, pela satisfação dos turistas que compram fantasias para desfilarem em suas alas, pelas boas avaliações dos jurados, etc.

2 – Ela tem de construir um “mapa de geração de valor” – Para não ser rebaixada por uma apresentação que não deixou jurados e públicos satisfeitos e encantados e para conquistar um título, as escolas focam em construir algo que vai muito além do valor econômico, elas vendem magia e sonho.

3 – Passa a integrar, de forma sistêmica, o modelo de negócio, o modelo de gestão e o modelo organizacional – A escola de samba de hoje é diferente da de ontem que era sustentada por um só agente; hoje as que prosperam tem um plano de negócio que envolve comunidade, investidores, poder público, sociedade e uma hierarquia muito bem definida dentro de seu quadro.

4 – Precisa atrair e desenvolver líderes inspiradores – Quanto o carnaval do Rio e até o de São Paulo não cresceram com pessoas como Joãozinho Trinta, Max Lopes, Rosa Magalhães e Paulo Barros e seus desfiles ousados, diferentes, tecnológicos e polêmicos?

5 – Luta pelo progresso de seus clientes – As escolas de samba de hoje não são só a “festa” do carnaval, dentro de suas comunidades desenvolvem projetos sociais e outras atividades visando o progresso das pessoas que a compõem e na Sapucaí/Anhembi trabalham para que o público sinta que aquele momento vivido valeu a pena, proporcionando qualidade de vida, sem falar na sociedade local que enriquece com a indústria que o conjunto de escolas e seu fornecedores formam.

6 – Customiza a gestão de pessoas, em vez de apenas “gerenciar” cargos – Quer ambiente que respeita mais a individualidade de cada um que uma escola de samba? Já viu a satisfação das senhoras que apesar da idade avançada tem espaço cativo no desfile em uma ala só delas?

7 – Valoriza o intangível, em vez de apenas o tangível – Mais uma vez as escolas de samba estão aí para mostrar que é possível. Praticando culturas diferentes, inovação, cultivando confiança elas vendem sonhos e realizaões.

8 – Desenvolve uma cultura integradora – Se fragmentar não tem carnaval, por isso desfile é sinônimo de coletividade e de harmonia, por isso que ao cair na avenida todos os integrantes de uma escola tem que cantar juntos o samba enredo e é por isso que a velha guarda está sempre fechando os desfiles, para lembrar a todos que no final o negócio sempre foi e será samba.

9 – Constrói “arquipélagos de excelência” ao invés de “ilhas de competência” – Você já viu uma escola campeã com uma bateria nota 10 e um mestre sala e uma porta bandeira medíocres?

10 – Cultiva paixão – Como explicar o motivo que leva um ser humano, em uma das festas mais lindas do mundo, a aceitar e se sujeitar a ir embaixo de um carro alegórico empurrando uma massa peso pesada composta pelo carro e mais uma dezena de pessoas em cima sambando? A resposta é que ele não é mais um, tanto a escola quanto seus colegas sabem quem ele é e valorizam o seu trabalho.

11 – Reinventa-se continuamente – As escolas praticam isso com maestria pois sabem que se não se reinventarem o público migra e a festa acaba.

12 – Incorpora a sustentabilidade ao seu modelo de negócio – As escolas de samba foram as primeiras a fazerem isso, sabe por quê?  Porque se não souberem o que é essencial para seus mais diversos públicos, elas não serão admiradas e sem admiração vem o rebaixamento (de categoria e financeiro).

13 – Coloca a tecnologia a serviço do ser humano – Eis mais um belo exemplo do carnaval, aqui nada é controlado por computadores e coisas do tipo, o que prevalece é a figura humana. A tecnologia é usada somente para tornar o processo mais produtivo e as apresentações mais bonitas e ricas.

14 – Estrutura-se de forma horizontal, direta e flexível, focada em centros de resultados e em negócios – Você já entrou em um barracão de escola de samba? Com certeza ele não tem salas de diretoria e nem da presidência, mas têm espaços organizados, separados de acordo com o desenvolvimento do tema que está sendo trabalhado e equipes divididas de acordo com o trabalho que exercem. Todos focados em entregar o que foi pedido e com espaço para que o talento aflore.

15 – Valoriza o sonho como a primeira etapa do planejamento estratégico – Princípio básico para planejar o próximo carnaval: o tema tem que ser bom e tem que envolver, afinal não se ganha nada com um tema ruim e com um grande planejamento.

Pelo visto a alegria proporcionada pelo carnaval vai muito além da festa e nós da Produção Coletiva somos testemunhas, mesmo não sabendo, até pouco tempo atrás, que as práticas que perseguimos são tão comuns dos sambistas.

Por Eugênio do Val, diretor, atendimento e planejador da Produção Coletiva

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